A estátua de Santa Catarina de Sena, que parece beijar a cúpula da Basílica de São Pedro, na Via da Conciliação
Santa Catarina de Sena viveu entre 1347 a 1380. Era analfabeta mas mesmo assim escreveu, ou melhor, ditou para que seus ajudantes escrevessem, 382 cartas a papas, cardeais, arcebispos, bispos, sacerdotes, monges e monjas, religiosos e religiosas, reis e rainhas, governantes, senadores, magistrados, embaixadores, comandantes militares, médicos, juízes, advogados, tabeliães, estudiosos, artistas, familiares, esposos, viúvas, encarcerados, prostitutas e leigos em geral. Escreveu (ditou) vários outros livros, entre os quais “O diálogo”, “A vida”, “As orações”.
Pela profundidade de seu ensinamento, sua visão teológica, visão espiritual, sabedoria admirada por teólogos, padres, bispos e até pelos papas que a conheceram, foi declarada Doutora da Igreja por Paulo VI em 1970. Ela conseguiu fazer com que o verdadeiro papa, Urbano VI (havia um antipapa), que estava exilado em Avinhão, na França, retornasse a Roma e reocupasse o lugar de São Pedro. Não era freira: simples leiga da ordem terceira dominicana. Viveu numa edícula nos fundos da casa paterna, mas de vez em quando passava tempos fora de casa, em suas andanças apostólicas. Teve os sagrados estigmas (as marcas das cinco chagas) de Cristo no corpo, mas pediu que ficassem invisíveis e Deus a atendeu. Só apareceram no instante após sua morte, a 29 de abril de 1380, de derrame. Acredito que sua sabedoria e conhecimento tão profundo da teologia provém de Deus, que mantinha diálogo frente a frente com ela, como narra o livro “O Diálogo”, que temos resumido neste site.
Contam-se coisas maravilhosas acontecidas com ela, impossíveis a um ser humano, em seu relacionamento com Jesus. Ela é padroeira da Itália e co-padroeira da Europa. Vestia o hábito das Irmãs da Penitência de São Domingos, da Ordem Terceira.
"Faz certa impressão – escreve São Karol Wojtyla proclamando-a co-padroeira da Europa – o tom livre, vigoroso, agudo com o qual ela adverte sacerdotes, bispos e cardeais." E também ao Pontífice (Urbano VI), a quem define "doce Cristo na terra", pede que, sem mais tardar e sem hesitações, deixe Avinhão e volte para Roma, junto ao túmulo de Pedro. Com Santa Catarina nós aprendemos a amar Jesus Cristo e sua Igreja, disse Bento XVI numa audiência.
SANTA CATARINA DE SENA E A ORAÇÃO
Na carta número 353 (são 382 cartas as que ela escreveu) ela fala sobre a oração, com que se consegue o desejo de possuir a Deus, um desejo íntimo da alma que atrai Deus e faz da alma uma só coisa com ele. A alma como que se separa do corpo e saboreia a essência divina. É o que ocorria com a santa. Aí a alma vai vencer as tentações e vai conseguir dominar-se plenamente.
A oração, segundo a santa, pode ser de três formas:
1- A oração contínua, que consiste no desejo santo, por meio do qual continuamos rezando durante as atividades. Esse desejo santo eleva até Deus todas as nossas ações espirituais e corporais, como atos de louvor. É, portanto, uma oração contínua, como dizia S. Paulo em 1 Tessalonicenses 5,17: “Orai sem cessar”.
2- A oração vocal, com a boca, quando recitamos a liturgia das horas, ou o rosário, ou outras preces. A oração vocal, na verdade, é própria para se chegar à terceira maneira de rezar, chamada oração mental
3- Oração mental- Chegamos a ela quando, com prudência e humildade, exercitamos a mente na oração, ou seja, ao pronunciarmos as palavras com a boca, se nosso coração não estiver longe de Deus. Quando estivermos rezando a oração vocal e sentirmos que a mente está começando a ser visitada por Deus, ou seja, está sendo atraída a pensar no Criador, precisamos, nesse momento, deixar a oração vocal e permanecer naquele ponto em que percebemos que Deus está presente. Quando nós percebermos que cessou a visita divina, se estivermos com tempo, podemos retomar a oração vocal, de maneira que nossa mente sempre esteja repleta de Deus, nunca esteja vazia.
Se vier à nossa mente pensamentos confusos, como o de que nossa oração não está sendo agradando a Deus, pode ser tentação do demônio. Não devemos desistir da oração nem nesse caso. Continuemos firmes, pois o demônio quer é nos afastar da oração. Deus quer que a alma, nessa luta, reconheça o próprio nada.
Continua a santa: “No esforço da boa vontade, a pessoa verá que Deus é bom. Somente ele é o doador e o conservador de todas as boas e santas decisões. Compreenderá que Deus as dá a quem ele quer”.
SANTA CATARINA DE SENA E O SOFRIMENTO
Na carta número 299, a Ristoro Canigiani, ela tenta consolá-lo porque teve a casa incendiada numa revolta partidária. Ele era Advogado e perdeu os direitos de ocupar cargos públicos simplesmente por ser amigo da santa. Na metade da carta, ela lhe fala sobre o sofrimento.
- precisamos ter paciência, ou porque o sofrimento é pequeno, ou porque o prêmio é grande, ou porque amamos a Deus, que nos permite que soframos .
- “O tempo passado, não tendes mais. O tempo que está para vir, não tendes certeza de vivê-lo. Somente resta o instante presente. Nada mais. O sofrimento passado não volta”.
- Já o prêmio é eterno, como diz Rom. 8, 18: “Os sofrimentos desta vida não se comparam com a glória futura”
- Deus nos permite os sofrimentos para nossa purificação e santificação, para exercitarmos nossa paciência, que nos revela se amamos ou não a Deus, se possuímos ou não a graça. “A paciência é um sinal claro de que amamos a Deus acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos”.
SANTA CATARINA DE SENA E OS MAUS CRISTÃOS
Santa Catarina de Sena escreveu esta carta em março de 1377 ao papa Gregório XI. E você ainda diz que os dias de hoje estão maus!
"Até parece que o demônio está governando o mundo pessoalmente. O demônio nada pode, mas nós o autorizamos. Para qualquer lado me volte, só vejo que cada pessoa usa seu livre-arbítrio com vontade pervertida. Leigos, religiosos e clérigos, cheios de soberba correm atrás de prazeres, altas posições sociais, riqueza material, impureza e miséria".
"Mas acima de todos esses males, eu vejo que é abominável a Deus o fato de que as flores plantadas no jardim da Igreja, que deveriam ser rosas perfumadas e espelhos de virtude, zelosos promotores da glória divina e da salvação das almas, emitem o mau cheiro do pecado, são egoístas, unem seus defeitos aos dos outros, sobretudo na perseguição à esposa de Cristo e à vossa santidade. Ai de mim, caímos no exílio da morte, entramos na guerra contra Deus".
Catarina e o Papa: há 650 anos começava o retorno a Roma (1376-2026)
Exatamente 650 anos atrás, em 13 de setembro de 1376, o Papa Gregório XI deixou Avinhão e iniciou a viagem que o levaria de volta a Roma. Quem o convenceu a tomar essa decisão histórica foi uma jovem religiosa sem cargos nem poder político: Catarina de Sena. Hoje, seu monumento em Roma volta a chamar a atenção: turistas o fotografam de uma perspectiva na qual a santa parece beijar a cúpula da Basílica de São Pedro.
Pe. Łukasz Bankowski – Vatican News
Em 13 de setembro de 1376, Gregório XI partiu de Avinhão. Foi o último Pontífice daquele período que passou à história como o “Cativeiro de Avinhão”. Desde o início do século XIV, os sucessores de Pedro já não residiam em Roma, mas às margens do rio Ródano. O retorno não era algo certo. A Itália estava dilacerada por conflitos, e alguns cardeais franceses e membros do círculo papal se opunham à partida do Papa de Avinhão. O próprio Gregório XI hesitou por muito tempo antes de tomar a decisão. Foi então que Catarina Benincasa desempenhou um papel extraordinário: terciária dominicana de Sena e mística, não ocupava qualquer cargo eclesiástico nem dispunha de instrumentos políticos.
A mulher que disse ao Papa: “Volte”
Catarina escreveu a Gregório XI com extraordinária franqueza. Procurou convencê-lo de que deveria superar o medo e regressar a Roma. Não se limitou, porém, às cartas. Em junho de 1376, chegou a Avinhão e conversou pessoalmente com o Pontífice. “Venha, venha, venha”, insistia, exortando-o a voltar. Para Catarina, não se tratava de uma questão de cálculo político. Ela relacionava o retorno do sucessor de Pedro a Roma à necessidade de renovação da Igreja e de restabelecimento da paz. Sua determinação foi recordada, ao longo dos séculos, por diversos Pontífices. Paulo VI ressaltou o papel de Catarina na superação das hesitações de Gregório XI e da resistência daqueles que o cercavam. Bento XVI afirmou que Catarina havia exortado o Papa a regressar a Roma “com vigor e eficácia”.
Em 13 de setembro de 1376, o Papa deixou Avinhão. Chegou a Roma alguns meses depois, em 17 de janeiro de 1377. Por trás de sua decisão, não estavam apenas a grande política e a diplomacia eclesiástica. Também foi decisiva a voz daquela religiosa de Sena que teve a coragem de lhe dizer: “Volte”.
“Doce Cristo na terra”
Catarina chamava o Papa de “doce Cristo na terra”. Ainda assim, soube dirigir-se a ele com firmeza, exigindo coragem e determinação. Seu amor pelo papado não significava permanecer em silêncio diante dos problemas da Igreja. Ao contrário, pedia sua reforma e conversão. A história dessa jovem de Sena, que falou a governantes e Papas, não terminou com o retorno de Gregório XI. Posteriormente, Catarina foi proclamada santa, padroeira de Roma e da Europa, bem como Doutora da Igreja.
A estátua que “beija” a cúpula
Seiscentos e cinquenta anos depois, Catarina continua a “olhar” de modo especial para o Vaticano. Sua estátua encontra-se nas proximidades do Castelo de Santo Ângelo, na Via della Conciliazione. Recentemente, fotografias tiradas do ângulo certo tornaram-se populares nas redes sociais. A figura inclinada da santa está posicionada de tal forma que Catarina parece beijar a cúpula da Basílica de São Pedro. É uma curiosidade fotográfica, mas, ao mesmo tempo, um símbolo extremamente preciso. A mulher que, há 650 anos, convenceu o sucessor de Pedro de que seu lugar era Roma, hoje parece, nas fotografias de peregrinos e turistas, dar um beijo na cúpula de São Pedro.
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